"Ainda Estou aqui"
No escurinho do cinema, as luzes se apagaram, e a imagem de Fernanda Torres ocupou a tela com sua intensidade usual. Finalmente, via ao filme “Ainda Estou Aqui”. O roteiro trouxe consigo não apenas uma história, mas uma experiência emocional que se estendia muito além da tela. Era como se a própria Fernanda, com seu olhar profundo e voz carregada de emoção, dialogasse diretamente com traumas e memórias minhas, e, ouso dizer, do público.
A trama, que explora a persistência da memória e as marcas invisíveis deixadas pelo tempo, encontra eco no pensamento do psicanalista Sándor Ferenczi. Em seu texto “Confusão de Línguas entre Adultos e a Criança” (1933), Ferenczi descreve como o trauma não é apenas um evento isolado, mas algo que se infiltra na subjetividade da vítima, criando confusão e silenciamento. Ele afirma: “O trauma, para a criança, não reside apenas no ato em si, mas na falta de acolhimento e compreensão diante da experiência vivida” (Ferenczi, 1933, p. 164).
Em “Ainda Estou Aqui”, vemos a representação desse princípio de maneira quase palpável. A personagem luta para dar sentido às ausências e rupturas que definiram sua vida. Em muitos momentos a personagem parece transbordar daquilo que Ferenczi chamou de “fantasias de acolhimento” – a busca incessante por um testemunho emocional que nunca veio. É comovente.
Fernanda, com sua arte, transcende a tela. Sua atuação faz mais do que ilustrar uma história; ela convida o público a olhar para dentro de si, para as próprias dores, para os silêncios carregados de traumas que moldaram quem somos.
No contexto do filme, essa conexão entre a narrativa pessoal e o coletivo emerge de forma contundente. Fernanda dá corpo à ideia de que o trauma não desaparece – ele apenas se transforma, através de gestos, silêncios e, sobretudo, da arte. Assim como Ferenczi sugeriu que o verdadeiro alívio só é possível através do reconhecimento e da validação, o filme “Ainda Estou Aqui” oferece uma experiência de cura coletiva: a possibilidade de reconhecer nossas feridas e, quem sabe, seguir adiante com elas, mas não mais à mercê delas.
Nesse papel, Fernanda Torres não apenas atua; ela testemunha. Como se dissesse ao público: “Ainda estou aqui. Você também”. E, nesse encontro entre arte e psicanálise, fica clara a mensagem de que as memórias traumáticas, embora dolorosas, também podem ser pontes para a compreensão e a ressignificação.
Referência Bibliográfica: FERENCZI, Sándor. “Confusão de Línguas entre Adultos e a Criança” (1933). In: Psicanálise IV: Escritos Selecionados. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
