Refugiados do Clima
No dia em que a Terra deveria ser celebrada, ela chorou. Chorou um choro seco, rachado, que subia das fendas do chão como um suspiro antigo. Era 5 de junho, Dia do Meio Ambiente, mas o ar não trazia festa — apenas um silêncio úmido de despedida.
Nas margens dos rios que sumiram, caminhavam os novos errantes do século: os refugiados do clima. Não tinham bandeiras, hinos ou fronteiras. Carregavam nas costas sacolas de pano puídas e nas mãos, as memórias daquilo que foi terra firme um dia. Vinham do sertão esturricado, da ilha engolida, da floresta em cinzas. Eram filhos do sol em fúria e da chuva que não veio.
As casas ficaram para trás — ou afundaram. Os nomes das cidades agora eram lenda. “Aqui era o vilarejo do meu avô”, disse uma senhora de pés rachados, apontando um espelho d’água onde a capela da infância havia sido submersa. Um menino brincava com o que restou: uma pá quebrada, um brinquedo sem roda, um mapa que não levava a lugar algum.
As estações já não obedecem mais aos calendários. O verão se instalou como um tirano e o inverno, cansado, só aparece nos velhos poemas escolares. A terra, antes fértil, agora se nega a dar pão. A floresta sussurra em brasa. E o mar, ah, o mar avança com passos de gigante, sem pedir licença ou perdoar promessas de cúpula internacional.
O mundo parece pequeno para tanta fuga. Mas ninguém foge da natureza — apenas corre ao lado dela, tentando alcançar um amanhã mais fresco.
E enquanto os refugiados do clima cruzam a poeira, nos arranha-céus com ar-condicionado e hashtags verdes, alguém posta uma foto de uma árvore em preto e branco com a legenda: “#DiaDoMeioAmbiente”. Mas o ambiente, partido ao meio, não responde.
Nessa travessia sem passaporte, o que resta é o sopro da esperança — uma semente guardada no bolso de um avô, a lembrança de quando o rio ainda cantava, o sonho de que talvez ainda haja tempo.
Mas para isso, é preciso ouvir. E agir.
Antes que todos sejamos, enfim, exilados do planeta que chamamos lar.
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